A Cura
A Cura reúne um conjunto de imagens feitas às margens do rio Quixito, em Atalaia do Norte (AM), onde um antigo barracão de extração ilegal de madeira havia sido destruído, segundo relatos locais, por indígenas da etnia Korubo.
Em 2009, durante a produção de um programa de TV no interior da Amazônia, nossa equipe navegava por um igarapé quando o diretor pediu para encostarmos em algum ponto das margens. O barqueiro avistou um trapiche improvisado e, enquanto os cinegrafistas ajustavam o equipamento, subi o barranco com ele para avisar aos moradores quem éramos e o que fazíamos ali. Foi então que encontrei os restos daquele barracão, uma espécie de mise en scène real da destruição: ferramentas abandonadas, objetos espalhados e a estrutura carbonizada, como se um incêndio tivesse encerrado bruscamente a atividade que ali acontecia.
O barqueiro, em voz pausada e quase profética, explicou que aquela área era território dos Korubo, conhecidos por protegerem sua terra com bodurnas de madeira e por reagirem de forma firme a invasões e tentativas forçadas de contato. Uma pesquisa posterior confirmou o que já era dito na região: os raros encontros do chamado “civilizador” com esse povo frequentemente resultaram em desaparecimentos e manchetes trágicas.
Apesar do risco evidente, os madeireiros seguem com o saque. Ao lado das ruínas, um novo barracão havia sido erguido. Segundo o barqueiro, ao perceberem nossa chegada com câmeras, fugiram para a mata. Nas imagens, os vestígios da resistência violenta surgem como um remédio precário, capaz de tratar apenas os sintomas, nunca a causa. A doença, como sabemos, persiste sem cura há cinco séculos.
As imagens que compõem A Cura são registros de um processo de cicatrização, mas também da permanência da ferida. Elas revelam o ciclo contínuo e violento da exploração clandestina das riquezas da floresta, que retorna mesmo após a destruição visível de seus instrumentos. Ameaçados ainda hoje pela invasão de seus territórios, os povos que ali vivem seguem expostos a esse movimento incessante.
Entre restos queimados e silêncio, o que se vê é uma tentativa de recomposição. A natureza e aqueles que a defendem operam, de forma contínua, um gesto de resistência e sobrevivência, em um equilíbrio sempre instável entre destruição e permanência.